POR DIÓGENES DE SOUZA E MONIQUE SÁ
“Eu estava chupando cana quando alguém me disse que ele havia chegado na cidade. A minha curiosidade me levou a enfrentar o medo e fui ao seu encontro. Perguntei quem era o ‘coronel’, ele então se apresentou. Ouvia falar que era valente e quis conhecê-lo. Era Virgulino Ferreira, Lampião. Me cumprimentou, pegando na minha mão de menino, tinha uns oito anos. Ele e seu bando estavam em Dores, minha cidade natal. Quando se revelou para mim, pediu que eu levasse seus homens ao quartel da cidade”.
Essa é apenas uma das histórias que João Batista de Oliveira, 95, contou naquela manhã de terça-feira, no Asilo Rio Branco, onde vive há sete anos. Conhecido pela sobriedade e pelo estado de saúde, que o destaca em relação aos demais internos, João não se privou de nos contar suas fábulas.
“Pela história de vida, Seu João acaba se tornando uma ‘celebridade’. Muita gente vem aqui entrevistá-lo. Para isso, a gente sempre pode contar com ele. Afinal, é receptivo, tranqüilo e faz amigos rapidamente. Se ele lhes contar tudo, vocês ficarão aqui por um mês, apenas ouvindo suas histórias”, tratou de apresentá-lo a assistente social do Rio Branco, Amanda de Carvalho.
Conversamos no quarto dele, o primeiro à esquerda assim que saímos da recepção do asilo, seguindo a mesma direção. O lugar é bem arejado, iluminado, fresco e confortável. Os móveis são poucos (uma cama de ferro, uma cadeira de balanço, um guarda-roupas, uma cômoda, TV e rádio gravador), mas os objetos e as fotos que decoravam o local reforçavam tudo o que ele dizia. O piso do chão lembra um tabuleiro de xadrez; uma das portas do quarto leva à varanda, onde estava quando chegamos.
Sentou-se em uma cadeira de balanço à nossa frente, com a dificuldade que a idade lhe impõe. Os olhos claros, mareados a todo tempo - talvez por causa da ausência dos cílios - pareciam sucumbir ao peso das pálpebras e, juntamente com a pele branca, não negavam a descendência européia, “da ‘raça’ holandesa”. A voz desgastada chega a soar incompreensível, dificultando o nosso entendimento.
Nascido em Nossa Senhora das Dores, município sergipano, em 23 de junho de 1913, João é o caçula de 10 filhos (oito homens e duas mulheres) e o único que ainda está vivo. Casou-se e logo foi morar no Rio de Janeiro, a convite do cunhado. “Toda a vida o Rio foi violento. Não havia um dia em que não visse gente morta”. Lá, ele trabalhou como barbeiro e, mesmo sendo analfabeto funcional, foi a profissão que lhe proporcionou estabilidade e os dois salários mínimos de sua aposentadoria, pagos ao asilo mensalmente.
Ele chegou ao Rio Branco em 2001. Seguindo o exemplo de seu pai, que também morou na instituição, João parece se importar pouco com sua expectativa de vida, mas está longe de ser uma pessoa desiludida. Para ele, não importa viver como seu falecido pai, 100 anos. “Depende da vontade de Deus”.
Mesmo sendo fruto de uma grande família, João foi patriarca de uma menor. Casou-se em 1933 com a mulher que ele considera sua eterna companheira. Ao todo, foram 45 anos juntos, relacionamento do qual nasceram as filhas Cilene e Marlene, que não obedeceram à ordem natural dos fatos e foram “embora” deixando o pai. Atualmente, ele diz viver sob expectativa das visitas que seus dois netos e sua neta (que atualmente mora na Inglaterra) fazem.
A alegria que consta nas fotos da família, não só no mural de cortiça aos pés da cama, mas em dois porta-retratos sobre a cômoda, não faz parte do rosto de Seu João. Talvez pela idade, ou mesmo por alguma tristeza retida. Mas este é um enigma que não conseguimos desvendar. Perguntamos se ele se sentia sozinho, ou até abandonado. Ele nega categoricamente e acha que é melhor que fique ali, pois não quer atrapalhar seus entes.
“Estrela” do Rio Branco, Seu João é constantemente escolhido para dar entrevistas e receber visitas. Por sua lucidez e simpatia, acaba por cativar os repórteres a ponto de eles sempre voltarem quando precisam de uma fonte. “A Globo me incomoda, vem aqui direto para conversar comigo”. Ele se orgulha por tal proeminência e nos mostra, inclusive, algumas folhas de jornal em que constam matérias com suas fotos ou declarações. Mal sabe ele que, em uma delas, a manchete fala de maus tratos contra idosos.
Enquanto conversávamos, Seu João teve que ceder a mais uma entrevista. A pauta tratava de um projeto da Faculdade Pio Décimo, que realiza ações estimulando o convívio e atividades entre idosos e cachorros adestrados. Dois deles, Íris e Tom (um labrador e um dálmata), estavam lá durante a gravação e foram elogiados: “São da melhor qualidade. Eles não fedem”. A jornalista, bem simpática e bonita, pareceu intimidar Seu João, pois as respostas das primeiras perguntas eram curtas. No entanto, com o decorrer da matéria, passou a dar boas declarações. “Ele é uma figura”, disse um dos adestradores dos animais.
Alguns minutos depois, a equipe se despede. “Quando precisarem, estou aqui. Tenho 95 anos e o juízo perfeito, não sou como os outros não. Coitados...”. Nossa conversa continua e voltam às lembranças dos tempos da infância breve e pobre, quando tomava banho de rio nu, junto com amigos, “sem nenhuma maldade”. Os relatos, com detalhes, tratam também de “assombrações” e figuras folclóricas como o “fogo corredor”.
O dia-a-dia dessa “celebridade” nada se assemelha ao das demais. A conversa com os outros internos e os passeios pela cidade, promovidos pelo asilo, tratam de quebrar a rotina. As excursões já passaram pelo zoológico, bairros de Aracaju e por igrejas. O Rio Branco, nas palavras dele, destoa da imagem que as pessoas geralmente têm dessas instituições. Não existe qualquer detalhe que demonstre a falta de cuidado com os idosos e nem quartos sujos, por exemplo. O lugar que muitos acham que representa o desprezo à velhice demonstra o respeito, o cuidado e a dignidade que se necessita em idade mais avançada.
A “prosa” foi boa, a conversa foi extensa, os assuntos se estenderam. Mas às 11h, o sino do asilo toca, indicando a hora do almoço, e também a nossa partida. Deixamos Seu João após uma longa sessão de fotos. Com um sorriso, ele nos pergunta se somos noivos: “apenas amigos”. Completou com um convite: “voltem mais vezes, venham com mais tempo”. Com certeza ainda havia muitas histórias a contar.
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1 Desabafo(s):
Ohhh Que história linda.
Adoreiiiiiiiii.
Me emocionou até.
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